O que quase ninguém fala com clareza

Em maio de 2026, a Neptune Software publicou um dos textos mais honestos do ano sobre IA para clientes SAP ECC. A tese central é simples e incômoda: boa parte da IA do ecossistema SAP pressupõe um clean core, ou seja, um ERP com modelo de dados padrão, APIs públicas e extensões fora do núcleo. E a maioria dos ambientes ECC está longe disso.

Este artigo parte dessa leitura, acrescenta o que mudou no Sapphire 2026 e organiza a decisão que todo time que roda ECC precisa tomar até 2027.

1. Três realidades SAP, uma só narrativa de mercado

Quase todo material sobre IA em SAP fala com um tipo de empresa. Na prática, existem três:

A. S/4HANA Cloud com clean core. Modelo de dados padrão, APIs públicas, extensões fora do núcleo. É onde a IA nativa da SAP encaixa melhor.

B. S/4HANA customizado. On-premise ou nuvem privada, com anos de código customizado trazidos da migração.

C. ECC com ambiente misto. Código Z, add-ons setoriais, sistemas especialistas e planilhas no meio do caminho. É onde está a maioria dos clientes ECC, e é para eles que este artigo foi escrito.

Na operação real, o trabalho que mais consome tempo não acontece dentro de um sistema. Acontece entre eles: na exceção que não fecha, na regra que nunca foi parametrizada, na decisão que depende de alguém com anos de casa.

2. O que mudou no Sapphire 2026

Até 2025, a mensagem da SAP era clara: as inovações mais novas, incluindo a IA, chegariam aos clientes de nuvem. Em maio de 2026, isso mudou em parte.

  • O anúncio: a maior parte dos assistentes e agentes do Joule passa a funcionar também em ambientes híbridos conectados ao ECC e ao S/4HANA on-premise. A própria SAP chama isso de solução interina.
  • A condição: segundo a cobertura do The Register, é preciso ter iniciado a jornada no RISE with SAP e contratar o Max Success Plan. Segundo a CIO.com, um porta-voz da SAP confirmou que pelo menos 50% do gasto com manutenção precisa migrar para a nuvem antes de habilitar os assistentes.
  • A visão da própria SAP: executivos da empresa afirmam que os assistentes e agentes do Joule são "feitos para a nuvem".
  • O prazo que não mudou: a manutenção padrão do ECC termina em 31/12/2027. A manutenção estendida vai até 2030, com custo adicional.

Em outras palavras: a IA nativa da SAP chegou ao ECC, mas como incentivo para acelerar a migração. Para muitas empresas, é um bom caminho. Para outras, a condição comercial é exatamente o que elas ainda não conseguem assumir.

3. Os três caminhos reais

Todo time ECC já está em um destes caminhos, mesmo que nunca tenha dito isso em voz alta.

Esperar o S/4IA interina da SAPCamada ao lado do ERP
Quando a IA começaDepois da migraçãoAgoraAgora
Compromisso exigidoPrograma de migraçãoRISE + 50% do gasto de manutenção em nuvemNenhuma mudança no ERP para começar
Processos com código ZDepois do redesenhoPadrão primeiroMapeados como são hoje
Sobrevive à migraçãoNão se aplicaSim, dentro da SAPProjetada para isso

Os caminhos não são excludentes. Muitas empresas vão combinar o segundo e o terceiro: usar o que a SAP oferecer de forma nativa e construir, ao lado, a inteligência específica do próprio negócio.

4. Onde a IA mora decide se ela sobrevive

Aqui está o ponto técnico que mais importa e que menos aparece nas apresentações comerciais.

IA construída dentro das customizações do ECC é refeita na migração. Ela depende das tabelas, dos programas Z e das telas de hoje. Cada redesenho do S/4 quebra uma parte dela.

IA construída numa camada ao lado do ERP acompanha a migração. Ela lê o ECC por interfaces padrão, e o conhecimento, as regras e os agentes ficam fora do núcleo. Quando o ERP muda, troca-se a conexão, não a inteligência.

A Neptune chega à mesma conclusão com outra arquitetura de referência: dados e APIs na base, uma camada de integração e orquestração, os serviços de IA e a experiência do usuário dentro das telas que as pessoas já usam.

5. O gargalo raramente é o modelo

O relatório The 2026 State of AI Agents, da Anthropic com a Material (pesquisa com mais de 500 líderes técnicos nos EUA no fim de 2025), mostra que as barreiras mais citadas para agentes de IA são a integração com os sistemas existentes (46%), o acesso e a qualidade dos dados (42%) e a gestão da mudança (39%). Na análise de uso que o mesmo relatório cita, o contexto aparece como o verdadeiro gargalo: tarefas que dependem de conhecimento tácito e disperso quase não são automatizadas.

Para quem roda ECC, isso se traduz em quatro perguntas, que são também as quatro camadas da plataforma Hyperpoint:

  • Processes: a IA sabe como o trabalho realmente flui entre o ECC, os sistemas especialistas e as planilhas, incluindo as exceções?
  • Memory: ela entende o significado dos dados mestres, a lógica do código Z e o que a empresa já decidiu da última vez?
  • Agents: os agentes são específicos por processo de negócio e coordenados por fluxo de trabalho, ou são assistentes genéricos?
  • Reasoning: existem regras, alçadas e pontos de decisão humana? O agente lê primeiro, só escreve com aprovação, e tudo fica auditado?

Se a resposta para qualquer uma delas for "não", trocar de modelo não resolve. Trocar de ERP também não.

6. Como decidir até 2027

Uma forma prática de começar, independentemente do caminho escolhido:

  1. Escolha um fluxo com dor real e repetida. Uma exceção que hoje exige três sistemas, uma planilha e duas áreas para ser entendida.
  2. Mapeie o processo como ele é, não como foi desenhado. É no desvio que a IA gera valor.
  3. Separe o que é regra do que é julgamento. Quando uma regra simples resolve, a resposta é criar a regra, não usar um agente.
  4. Defina antes o que o agente pode e não pode fazer. Ler, investigar e propor é diferente de alterar contrato, estoque ou nota.
  5. Construa fora do núcleo. Assim, o que você aprende no ECC continua valendo no S/4.

Conclusão

2027 é uma data de decisão. A migração pode levar anos. A inteligência não precisa esperar por ela, desde que more no lugar certo e conheça a empresa de verdade.

É essa camada que a Hyperpoint constrói: a camada de inteligência entre os sistemas da empresa e os agentes de IA. Começando no ECC que você roda hoje e projetada para continuar no S/4 de amanhã.


Fontes

  • Neptune Software, "AI for SAP ECC: What You Can Build Today Without Waiting for S/4HANA", 27/05/2026. neptune-software.com
  • CIO.com, "SAP's AI offer to legacy customers comes with a catch", 13/05/2026. cio.com
  • The Register, "SAP U-turn brings AI features to ECC and on-prem S/4HANA", 13/05/2026. theregister.com
  • SAP, comunicado sobre a manutenção do SAP Business Suite 7, fevereiro de 2020.
  • Anthropic e Material, "The 2026 State of AI Agents Report". resources.anthropic.com

Conteúdo de análise. A compatibilidade da Hyperpoint com S/4HANA é intenção de arquitetura e será demonstrada caso a caso.